quarta-feira, 20 de maio de 2015

Poderia ser escrito por mim...ainda hoje!

" “Os dias prósperos não vêm ao acaso; são granjeados, como as searas, com muita fadiga e com muitos intervalos de desalento.”

Camilo Castelo Branco

Tão belas e sábias palavras!!!
Tornou-se uma espécie de lema de vida, algo a que me agarro nos dias menos bons na esperança de alguma esperança ganhar!
Chamo-mo Sara e tenho 20 anos.
Aos 16 anos foi-me diagnosticado um quadro depressivo major e tenho vivido estes últimos 4 anos lado a lado com esta doença. Costumo dizer que se tornou a minha sombra, está sempre lá mesmo que por vezes não sinta a sua presença. Ao início não foi fácil! Uma adolescente de 16 anos que se começa a afirmar na sociedade, que se está a formar como pessoa, a formar o seu “eu”, ter dado de caras com uma doença destas não foi pêra doce. Como grande sonhadora que sou, tinha sonhos, tantos sonhos… A minha “amiga” depressão fez o favor de acabar com todos eles!
Poucas pessoas sabem o que é realmente a depressão. O que é sentir um vazio enorme dentro de nós, passar as noites em branco a chorar sem saber a razão do choro, a falta de apetite, a irritabilidade matinal, a agressividade que vamos ganhando e descarregando no mais próximo, a raiva acumulada dentro de nós, a sensação de que nunca iremos ultrapassar esta fase, de nos sentirmos um peso para quem nos rodeia e ama.
Vivi de perto o estigma associado às doenças mentais, a ideia de que a pessoa está naquela situação porque quer, porque é fraca de espírito. Nada disso, meus amigos! Como é óbvio ninguém escolhe ficar nesta situação. Eu era a “coitadinha” de quem toda a gente tinha pena. Todos criticavam e poucos tentavam perceber a realidade em que vivia.
– Oh! Ela está assim porque quer! Que se levante e vá à luta!” – se fosse assim tão fácil não acham que já o teria feito?!
– Aquilo é psicológico. É só para chamar a atenção! – a sua resposta está e-r-r-a-d-a!!!
– Está assim por causa de uma coisinha destas, imagina se tivesse uma doença grave! – lamento desiludir, mas a depressão é uma doença grave, muito grave… E mata, tal como qualquer outra doença. Digo mais. Cerca de 20 milhões de europeus sofrem de depressão e mais de 60 mil morrem anualmente por suicídio. Preocupante não é?!
A depressão roubou-me um direito fundamental do ser humano: a ALEGRIA de viver!
Uma jovem com um futuro promissor pela frente, com boa média para ingressar na universidade, com uns pais e irmãos que a amam. Uma jovem em tão tenra idade a quem a depressão roubou a alma.
É triste, muito triste.
Transformei-me. Já não era eu… Aquela Sara sorridente, brincalhona, calma e com um sentido de humor fora do normal.
Agora era a Sara triste, chorosa, agressiva, que passava os dias fechada no quarto com o olhar penetrado na parede azul-marinho.
Vi o sofrimento estampado no rosto dos meus pais e irmãos. Vi o quanto eles se esforçavam para que eu me sentisse a pessoa linda que, na realidade, era.
E foi por eles que decidi procurar ajuda.
Percorri vários psiquiatras, outros tantos psicólogos, muita medicação pelo caminho, e melhoras? Que é delas?
Bati no fundo do poço.
Não falava, não reagia, não pensava.
O meu cérebro parecia não funcionar e todo o meu corpo estava mergulhado num sofrimento terrível.
Precisava de sentir algo… Algo forte, mais forte ainda que aquela dor que a depressão me oferecia como presente.
Comecei a automutilar-me regularmente. Com um x-acto fazia pequenos cortes em sítios estratégicos de forma a que nunca ninguém descobrisse. Cortava-me e via aquele vermelho sangue jorrar de dentro de mim. Era uma dor que aliviava… Fazia-me esquecer, por momentos, a dor psicológica que a depressão provoca.
Aos 17 anos tentei o suicídio.
Não, não foi um acto de covardia.
Eu já não era eu há muito tempo. A depressão tinha-me tornado numa pessoa com a qual já não conseguia viver.
Queria acabar com o meu sofrimento. Já chegava!
Num acto de raiva e desespero ingeri 99 comprimidos.
A minha mãe foi a minha salvação.
Aos 18 anos ingressei na Escola Superior de Enfermagem e foi aí que decidi deixar para trás toda a medicação. Não voltaria a tomar um comprimido e venceria esta doença apenas com a minha força de vontade, coragem e o apoio dos meus.
Estava ciente de todas as consequências que isso traria.
Decidi arriscar e consegui!
Hoje, depois de 4 anos de luta e de muitos mais que terei pela frente, não me atrevo a dizer que a depressão me deixou. Tenho consciência de que muito dificilmente isso irá acontecer. Já tive algumas recaídas neste longo caminho que percorro.
Mas sei que posso controlá-la! Inverter os papéis e torná-la tão fraca como ela me deixou a mim, em tempos.
Há dias muito bons!
Há dias maus, em que tudo parece voltar ao início. Nestes dias lembro-me das palavras de Camilo Castelo Branco e a esperança por um amanhã mais risonho volta.
Não me esquecerei nunca das palavras de uma professora do meu secundário:
“Pessoas como a Sara tornam-se sempre grandes pessoas, com uma história de vida fantástica e acredite que vai ajudar muita gente!”
Eu também penso que sim, Professora.
Ou, pelo menos, vivo nessa esperança!"

#MariaCapaz

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